terça-feira, 8 de maio de 2012

LITERATURA BRASILEIRA. A ARTE DE CONTAR UM CONTO.

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                                                                                           Internet


 

No Brasil, a arte de escrever histórias curtas, praticamente, começou no século 19 com os escritores Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Artur de Azevedo, que encontraram na tropical cultura brasileira  ricos elementos para nortear toda a narrativa. Foram eles primeiros a se destacar no panorama brasileiro do conto, abrindo espaço para contistas como Monteiro Lobato, Vicente Guimarães, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Ruth Rocha, Lima Barreto, Otto Lara Resende, Lygia Fagundes Telles, José J. Veiga, Luiz Vilela, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca...

Do brasileiro Machado de Assis, recebemos boa e primeira receita: ... O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias. É naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos.

Para o escritor norte-americano, Edgar Allan Poe, o conto é uma narração curta em prosa, que requer de meia hora a uma hora e meia ou duas de leitura, no máximo. Portanto, pede forma simples, mobilidade e linguagem fluída. O gênero é oposto ao romance, tendo a novela intermediária entre os dois.

Júlio Cortázar foi mais longe. A partir de sua experiência como contista, o escritor argentino joga com uma abordagem mais atenta. No ensaio Alguns aspectos do Conto afiança que é preciso chegar à ideia viva do que é o conto. E isso é sempre difícil na medida em que as ideias tendem ao abstrato, a desvitalizar seu conteúdo, ao passo que a vida rejeita angustiada o laço que a conceituação quer lhe colocar para fixá-la e categorizá-la. Mas, se não possuirmos uma ideia viva do que é o conto, teremos perdido nosso tempo, pois um conto, em última instância, se desloca no plano humano em que a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me permitem o termo; e o resultado desta batalha é o próprio conto, uma síntese viva e ao mesmo tempo uma vida sintetizada, algo como o tremor de água dentro de um cristal, a fugacidade numa permanência.

Tolstoi, Eça de Queiroz, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Garcia Lorca, Oscar Wilde, Shakespeare, Voltaire, Balzac, Flaubert, Roth, Pascal, Cioran, Tchekhov, Guy de Maupassant e outros, ao longo dos séculos, ajudaram a fixar o gênero literário conto na sua forma literária em diferentes correntes.

O conto é uma das formas narrativas mais antigas. No que se referem às origens, as histórias curtas remontam ao início da civilização de diferentes povos e culturas, passando pelos gregos e romanos, que fortaleceram o hábito de cultivar o conto como meio de contar fábulas, lendas e mitos entre eles. A coletânea de poemas homéricos sobre a Guerra de Tróia e o posterior regresso do herói Ulisses à terra natal, ou seja, A Ilíada e a Odisseia são apontadas como iniciadores da tradição ocidental de contar histórias.

Considerações que levam aspirantes a escritor, nos quatro cantos do mundo, aderir ao gênero com força total para materializar sua criação literária. No conto o escritor se nutre de toda efervescência da ilimitada magia das ferramentas de linguagem, seja que idioma for.

Welington Almeida Pinto

EU LEIO. E VOCÊ?

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Imagem da Internet
 



Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa; destruído, um coração que chora. Provérbio hindu
 
 

 
Certa vez, ao visitar a casa de um parente, deparei com o livro A República, de Platão, sobre a mesinha de canto na sala de visitas. Imediatamente, a satisfação invadiu minha alma, achando que estava diante de um leitor de peso.
Então perguntei quem lia Platão e a resposta do primo foi curta:
- Ninguém.
Quis saber o que fazia aquele livro naquele lugar. A esposa dele disse com euforia:
- Compondo a decoração da sala. É moda.
Meio desapontado franzi a testa com ar de decepção. Logo observei mais exemplares esquecidos sobre outros móveis, compondo ambientes dentro de uma casa cheia de cômodos: salas, salões e até jardim de inverno com redes e cadeiras confortáveis. Nos quartos das crianças, várias prateleiras expunham alguns livros encadernados em diversas cores, todos vistos entre porta-retratos, miniaturas de carros, bonecas e outros babilaques decorativos.
- E biblioteca, tem? – perguntei.
- Não, isso aí não tem – afirmou a mulher do meu primo com um sorriso amistoso.
Na hora lembrei-me de uma frase de Parl Rowan:... A biblioteca é o templo do saber, e este templo tem libertado mais pessoas do que todas as guerras da história.
Sem dizer uma só palavra, tratei de recompor o corpo na poltrona e pensar naquilo tudo com bons olhos. Afinal, são livros. De autores da melhor qualidade: Platão, Aristóteles, Kafka, Eça de Queiroz, Guimarães Rosa, Machado de Assis. Tem capa e páginas impressas. São livros, sim senhor! Não dá para não ler. O pensador estadunidense Ralph Emerson estava coberto de razão quando disse que a virtude de um livro é ser digno de leitura.
 

                             
O LIVRO E O LEITOR. O professor Aires da Mata Machado Filho defendia que, para um livro são necessários dois autores: um que escreve e outro que lê. Isso mesmo.  É o olhar do leitor que completa uma obra literária. Nada de novo sob o sol.
Para Aires, leitor ideal tem algumas características: lê por prazer e para ter uma visão mais ampla da vida e do mundo, imaginando que dessa forma pode compreender melhor as pessoas e a si próprio.
Quem lê por prazer encontra tempo para frequentar lugares onde expõem ou vendem livros. Mesmo que não compre nada, vai ali para garimpar, tocar, folhear e até para sentir a textura do papel.
Leitor ideal não estraga nem rabisca livros. Ao longo da vida constrói sua biblioteca particular e sente o maior orgulho de mostrar aos amigos uma estante cheia livros, funcional e prática como na casa do escritor e amigo Pascoal Motta.

         COMO E POR QUE FORMAR LEITORES. O estímulo começa no berço, segundo a escritora Vivina de Assis Viana, que propõe misturar livros aos brinquedos das crianças desde o primeiro choro.
Aproveitando o conselho, dei um livro para minha sobrinha, a Carolina, quando completou um ano de vida. Exemplar especial, de plástico. A menina pegou o livro e, antes de levá-lo à boca, olhou atenta, tateou, virou daqui e dali como se fosse um brinquedo interessante, que logo estabeleceu com ela uma boa amizade. Parabéns, Vivina.
O escritor João Ubaldo Ribeiro lembra que seu pai proibia os filhos de entrar em sua biblioteca, mas sempre esquecia a porta aberta.
O professor Davi Anigucci, afirma que o livro é um poderoso instrumento de mudanças na sociedade. Defende que... a leitura é sempre alguma coisa espantosa: passamos a decifrar, de algum modo, o mundo através das letras. Em grau maior ou menor, somos tateadores sobre letras. É por esse tateio sobre as letras que tentamos reconhecer o mundo que nos cerca e a nossa própria face neste vasto mundo. Vamos dizer que a experiência da leitura é a nossa ventura, a história romanesca em que penetramos pelos simples ato de abrir um livro.
Criança que toma gosto pela leitura desde cedo vai ler a vida toda. Será um adulto consciente de seu papel na sociedade.
O livro, de uma forma ou outra, melhora a visão.

                   
O BRASILEIRO PRECISA LER MAIS. O Brasil precisa levar mais a sério a difusão da cultura entre seus habitantes. Encarar o programa Educação para Todos, da Unesco, tem que ser levado a sério.
Nos últimos anos, o governo criou mais vagas nas escolas, mas deixou de avançar na qualidade do ensino. O que é lamentável.
Uma competente arma seria apressar a regulamentação da Lei do Livro no Brasil, sancionada em outubro de 2003 para criar mecanismos de estímulo à leitura nas escolas, e fora dela. Ao Comitê de Regulamentação, sugerimos a criação da Loteria Cultural que pode garantir recursos às Bibliotecas Públicas, implantação de um Selo Postal para facilitar despachos de livros e a inclusão de um livro infantil na Cesta Básica do Trabalhador.
Com a Lei do Livro em vigor, aí sim, poderemos fazer do Brasil um país de leitores. Vale a pena.
 
 
* Welington Almeida Pinto é autor, entre outros livros, de Santos-Dumont, No Coração da Humanidade e A Saga do Pau-Brasil - www.welingtonpinto.blogspot.com
** * FBN© - 2013 – Eu leio. E você? - Categoria: Crônica. Autor: Welington Almeida Pinto. Iustr.:  Imagem Internet - Link: http://contosecronicasgerais.blogspot.com.br/2012/05/editar_3229.html
 

* ACONTECEU NAQUELE BAILE

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Anos Dourados
 
Baile da Cemig - Minas Tênis Clube - Music Show
 
 

Welington Almeida Pinto

SÓFOCLES larga o jornal e levanta os olhos para o relógio na parede, que marcava nove horas da noite. Esfrega as mãos, ajeita o colarinho da camisa e se despede dos amigos da sala de leitura do Minas Tênis Clube. Desce a escadaria até o hall de entrada do Salão de Festas e fica ali um tempinho, passeando o olhar pela fila de mesas, quase todas ocupadas.

Apressadamente, escolhe uma entre as poucas vazias e logo se acomoda numa mesa de mogno escuro, coberta por um forro amarronzado, onde descansava o cardápio ilustrado com o logotipo do clube. Ao lado um cinzeiro de metal.

Enquanto esperava pelo garçom, seus olhos claros e vivos observavam as pessoas sentadas ao longo da pista de dança. A maioria das mulheres trajavam vestidos longos e os cavalheiros vestiam terno escuro com gravata colorida, quase todos com cara de executivos ou acionistas da bolsa de valores. Com a melhor cara do mundo, elas saudavam umas às outras e riam muito, enquanto aguardavam a hora da orquestra começar a tocar.

De repente, Sófocles avista um garçom que servia logo adiante. Levando um dos braços e estala os dedos, chamando sua atenção. O salão estava cheio. Os garçons se moviam como contorcionistas de circo, fazendo um esforço heróico para melhor atender seus clientes. Dois minutos depois, ele se aproxima, cordialmente:

- Boa noite, doutor.

- Boa noite. Não sou doutor, meu nome é Sófocles.

- Desculpe-me, senhor.

- Por favor, uma cerveja.

- Brahma ou Antártica?

- Só trabalha com as duas marcas?

- Sim.

- Então, a mais gelada, por favor. E dois copos.

- Alguma outra coisa, senhor?

- Por agora, não.

- A comanda, por gentileza – pede o garçom.

- Comanda!?...

- Não lhe deram uma folha de papel na entrada?

- Não. Quer dizer, sim. Desculpe-me, está no bolso do paletó.

- Obrigado. Trago a bebida em dois minutos.

- Bem gelada, sim? – reforça.

O moço sai e logo volta com o pedido, curvando-se para servir.

- Com ou sem colarinho?

- Com.

Dez minutos depois, as luzes do teto diminuem a intensidade e o salão mergulha em agradável penumbra. Cortinas do palco se abrem, exibindo a orquestra que tocavaLook for a Star’, de Billy Vaughn, enquanto um facho colorido de luz tingia as paredes, os móveis, as fisionomias. Hora de dançar. Cavalheiros convidam suas damas e, juntos, caminham solenemente até a pista de dança, onde começam a flutuar em diversos graus de intimidade.

Encantado com a festa, mas ainda oculto atrás de uma garrafa escura de cerveja, Sófocles pensava que poderia convidar alguma moça para bailar. Decidido, estende a cabeça para os lados, como quem quer aparecer para as mulheres sentadas ao seu redor e flertar com alguma.

Do outro lado da pista, uma moça com os cabelos cor de palha e ares de garota, acomodada entre amigas, chama sua atenção. Trocam olhares. Vez ou outra, ele levantava a mão direita e baixava a esquerda, ou vice e versa, como se quisesse mostrar que não tinha aliança nos dedos.  A moça toda sorridente, eleva o copo e faz um brinde no ar, retribuindo-lhe o gesto. Sófocles também ergue o seu copo e faz um sinal de mão, chamando-a para a sua mesa. Ela balança a cabeça concordando. Meio minuto depois deixa suas amigas e se aproxima do homem.

- Ei.

Sófocles fica de pé, estende-lhe a mão e a convida para sentar numa cadeira ao seu lado. A moça agradece com um sorriso meigo nas faces:

- Obrigada.

- É um prazer ter sua companhia.

- Sozinho?

- Ã-hã!... Solidão, às vezes, é bom. Motiva o equilíbrio entre o corpo e a alma.

- Será?

- Pode crer.

- Talvez.

- É mesmo uma linda mulher! – observa Sófocles.

- Acha?

- Uma princesa.

- Ó, não!... Assim você me deixa encabulada.

- Não precisa.

- É novo por aqui?

- A primeira vez.

Ela ri com ar de surpresa.

- Que bom!

- Me sinto um debutante!

- Seja bem-vindo.

- O salão é muito bonito, imponente – ressalta ele.

- Antigo, mas bem conservado. Meio ‘Art Nouveau’, percebe o estilo?

- Claro.

- Aqui a gente se debruça sobre o passado e sonha com os bons momentos vividos ao longo da vida. Desde mocinha frequento esse salão de festas.

- Imagino.

- Gosta de dançar?

- Danço mal – responde o homem.

- Mesmo?

- Sim.

- Não tem importância, aqui ninguém liga – garante a mulher.

- Melhor assim. E você, o que deseja beber?

- Acompanho você na cerveja.

Sófocles imediatamente enche o outro copo.

- Um brinde aos seus belos olhos.

- Tim-Tim. Outro brinde à festa.

- Tim-Tim – repete Sófocles, tlintlincando os copos.

- Sabia que toda sexta tem um bailinho para os sócios?

- Prometo ser um frequentador assíduo.

- Vai gostar, logo-logo se enturma.

- Melhor. Qual o seu nome?

- Luciana. E o seu?

- Sófocles.

- Sófocles! Homônimo do dramaturgo grego?

- Meu pai era grande admirador da cultura grega. Mas, não sou nada trágico.

- Nos tempos de faculdade li ‘Édipo Rei’. Adorei – revela Luciana.

- Segundo Freud, representa o drama de todos nós.

- Talvez sim, talvez não.

- E você, o que faz na vida?

- Sou professora. Cursei Letras.

- Letras!

- Leciono no Estadual Central.

- Apenas ensina literatura ou escreve também?

- Não, não escrevo. Esse é um dom de poucos, mas sou uma leitora compulsiva. Só um livro guarda, entre duas capas, sabedoria para capacitar a mente do individuo.

- Então deve ser uma excelente professora.

- Me esforço.

- Sabe de uma coisa, Luciana, eu adoro mulheres inteligentes. Para mim inteligência é um componente afrodisíaco.

- Afrodisíaco?

- Isso mesmo, afrodisíaco.

- Quer dizer que a inteligência excita?

- Muito – afirma o homem sorrindo.

- Ô louco!... Meio cômico, mas...

- Mas?

- Deixa para lá. E você, o faz?

- Ganho a vida produzindo textos.

- Jornalista?

- Publicitário. Quando a inspiração bate faço literatura.

- Pelo jeito, deve bater sempre.

Depois de algum tempo trocando risos e palavras, Sófocles põe uma das mãos no joelho da mulher. Fica um tempo admirando seus lábios cobertos de vermelho e louva:

- Você tem uma boca bonita.

Antes que ela dissesse qualquer coisa:

- Os olhos também. Azuis como o céu de Paris.

- Paris!

- Conhece?

- Nunca fui a Paris.

- Não?

- Um dia quem sabe?

- Vai gostar.

- Você é um observador perspicaz.

- Sou?

- Percebo.

- O belo atrai, sempre.

A mulher ri, cheia de satisfação. Do longo vestido de organdi azul que moldava seu corpo, surgiam dois braços arredondados e claros, nus até os ombros, onde o homem, de leve, vez ou outra depositava uma das mãos, maliciosamente.

- Tem a pele tenra como veludo.

- Meu Deus!...

- Ah, o seu perfume é bem atraente!...

- Magriffe.

- Gosto dos perfumes franceses.

- Também adoro.

- Claro.

- Sófocles?

- Hum?

- Posso revelar um segredo?

- Sim. Juro não contar para ninguém.

Risos. Luciana:

- Tenho medo de homens com mais de quarenta anos.

- É a idade que acha que tenho?

- Ã-hã.

- Quando uma pessoa me pergunta a idade sabe o que digo?

- Nem imagino.

- Olho-a de baixo a cima e digo: depende do dia.

- Ah, é!... Por exemplo: hoje?

- Posso garantir que, por sorte, pelo menos por enquanto não represento perigo. Tenho trinta e nove anos, onze meses e vinte uns dias.

A moça ri descontraída. Depois filosofa:

- Aos 20, seu rosto é dado a você pela natureza. Aos 30, seu rosto é moldado pela vida. Aos 50, cabe a você merecê-lo.

- Fabuloso. Quem disse isso?

- Coco Chanel.

         - Não sabia que a estilista também filosofava.

- Pois sim. Não tem mais de quarenta anos, mas tem talento de sobra na arte da conquista. Muito perigoso para uma mulher sozinha – atenta Luciana.

- Protesto.

- Hein?

- Sou inofensivo, puro. E por cima, tímido.

Risos. Grandes focos azulados de luz, a todo minuto, riscavam as paredes e o teto do salão. Animado, Sófocles faz um sinal ao garçom, que chega deslizando entre as cadeiras.

- Outra cerveja, por favor.

Luciana, ao retirar o garçom, coloca a mão levemente num dos braços do companheiro.

- Tive uma ideia: vamos dançar?

- Dançar?

- É, dançar.

- Daqui há pouco.

- Agora.

- Desculpe-me, querida. Enferrujado com estou, sinto que preciso beber mais um pouquinho. Preciso de mais álcool para lubrificar as juntas de minhas pernas.

- Pena.

- Me dá só mais um tempinho, dá?

- Então... Então... Olha aqui, enquanto você pensa volto para a mesa de minhas amigas, certo?

- Já?

- Foi um prazer.

- Assim que tocar um bolero, tiro você para dançar. Posso?

- Bolero?

- Dois p’ra lá, dois p’ra cá...

- Espertinho!

- Meu coração deseja vê-la novamente.

- Combinado.

Com a mesma expressão afetuosa e divertida, Luciana fica de pé, despedindo-se:

- Tiauzinho.

- Espere.

- O que foi?

Sófocles toma um gole de cerveja e surpreende a mulher com um beijo furtivo, passando parte do líquido para sua boca. Luciana experimenta um friozinho agradável no fundo da barriga. Sem dizer uma só palavra, ela deixa a mesa remexendo os quadris e rindo do gesto audacioso do homem.

 A festa continuava acalorada. Mas, antes do baile acabar Sófocles decide ir embora, permitindo morrer sob os dedos a melodia que devolvia lembranças ligadas à sua mocidade. Chama o garçom e paga a conta.

Atravessa a porta principal do salão de festas do clube e toma o elevador, deixando atrás de si a felicidade resgatada pelas músicas dos anos sessenta que a orquestra ainda tocava: ... Óóóóhhh... Óóóhhh... Diana, por favor...

- Valeu!... – suspira o homem, pegando no bolso das calças a chave do carro.
 


* FBN© - 1986 – ACONTECEU NAQUELE BAILE -  Categoria: Conto – Gênero: Realismo Mágico - Autor: Welington Almeida Pinto – Original text: Portuguese - Iustr.:  foto Internet – Link.:  http://contosecronicasgerais.blogspot.com.br/2012/05/editar_8431.html

* ALBERT EM BRUXELAS


*
 
 

Rainha Astrid, rainha da Bélgica

 

- Chegamos, senhor. Esse é o hotel mais próximo da Igreja Notre-Dame-de-la-Chapelle.

- Ah, sim. Obrigado. Esta nota paga a corrida?

- Dez Francos!... Sim, ainda sobra troco.

- Não precisa. Guarde o dinheiro.

- É bem mais do que o preço marcado pelo taxímetro, senhor.

- Não se preocupe. Resta-me outra, o bastante para pagar a pensão por essa noite - garante o passageiro.

O motorista sorri agradecido.

- Bom descanso, senhor.

- Danke.Tiau.

Albert desce do táxi e entra no Hotel. Pára diante do balcão de atendimento e toca a campainha para chamar a atenção do recepcionista que lia um jornal, mergulhado na poltrona.

- Boa noite.

O moço ergue os olhos.

- Sim, senhor.

- Meu nome é Albert, venho de Londres. Quero um quarto.

- Um quarto!?... admira o recepcionista, aborrecido com a interrupção da leitura por aquela estranha figura de pé na sua frente: um homem magro; a cabeleira branca, emaranhada, descendo pela nuca sobre um colarinho encardido.

- Sim. Um quarto, por favor - repete Albert, sorrindo.

- Muito bem, são doze francos. Pagos adiantados, por favor.

Albert põe a pasta de couro no chão e o capote sobre ela. Remexe os bolsos do casaco e retira uma nota de dez francos, além de algumas moedas, e põe o dinheiro sobre o balcão.

- É o que sobrou - diz.

O hospedeiro, depois de contar os valores:

- Lamento, o senhor só tem dez francos e cinqüenta e quatro centavos. Não posso fazer nada.

- Mas...

- Não adianta insistir. Descendo a rua vai achar pensões mais baratas.

- Não, está tarde. Amanhã, pago o restante.

O homem do hotel cuspinha para o chão.

- Impossível.

- Calculei mal.

- Quanto pensa que tinha?

- Não sei o certo. Quando saí de Londres minha mulher me deu várias notas. Disse que era o bastante. Mas encontrei tantos pobres no navio que me vi na obrigação de ajudar alguns.

- Pobres, é!... O que veio fazer em Bruxelas?

- Visitar amigos.

- Por que não fica com um deles?

- Amanhã. Não quero importuná-los a essa hora da noite.

- São pouco mais de nove horas.

- É tarde. Acho que não devo.

- Importunar amigos não pode, mas encher meu saco pode. Vamos andando, cara. Descendo a rua você encontra hospedagem mais barata.

- Tudo bem. Mas, gostaria de merecer um favor.

- Se prometer dar o fora.

- Prometo. Antes, quero usar seu telefone.

- Se é assim, passe o número que eu disco.

- Só tenho o endereço.

- Tudo bem. Desembucha logo que já estou com a lista telefônica na mão.

- Castelo de Laken.

- Castelo de Laken!... Está brincando comigo, cara!

- Não, não estou.

- Trote, não é?

- Não, não é. Tenho uma grande amiga que mora lá.

- Na residência real?

O recepcionista torna a olhar Albert de cima a baixo. Depois de uma risadinha divertida, caçoa:

- Suponho que toma chá com a rainha Astrid.

Albert sorri.

- Sim, às vezes. Ela é minha amiga.

- Fazendo hora com minha cara, não é?

- Não, não estou. Por favor, veja para mim o telefone do Castelo de Laken.

O moço, depois de pensar um pouco, desenha nos lábios um risinho irônico e resolve divertir um pouco mais com o estrangeiro. Encontra na lista o telefone do Castelo, disca e passa o aparelho a Albert, dizendo:

- Fique aí batendo papo com a rainha que vou até a porta tomar um ar.

Albert pega o fone com cuidado, como se pedindo perdão pelo aborrecimento. O hospedeiro sai e logo volta com um policial ao lado.

- Tudo bem, tudo resolvido - adianta Albert, ao avistá-lo novamente.

- Que foi que a rainha disse? - pergunta o hospedeiro, piscando para o guarda.

- Estava no banho. Deixei o recado com a camareira. Passei a ela o número do telefone do hotel. Fiz mal?

O moço da recepção balança a cabeça, como se concordasse. O policial caminha até Albert e bate uma das mãos nos seus ombros.

- Como se sente, senhor?

- Agora, melhor. E o você?

- Não se preocupe comigo. Vou providenciar uma ambulância para levá-lo ao Hospital.

- Para mim!?... Não precisa, não estou doente.

- Sei como é. Deve ser um surto passageiro - o agente tenta explicar.

- Acha que estou ficando tantã?

- Fique tranquilo, o senhor terá um bom tratamento em nosso hospital.

- Pare com isso. A rainha vai me ligar daqui a pouco.

O policial ironiza, rindo:

- Tudo bém. Vou deixar o telefone da clinica na portaria do Hotel. Ela telefona para lá.

E dirigindo-se ao hospedeiro:

- Chame a viatura, por favor.

Albert perplexo:

- Seu guarda, não acha que está cometendo um grande erro?

- Por favor, controle-se.

Albert perde a paciência e ameaça deixar a recepção da hospedaria. O policial dá um passo à frente, agarra com fúria o braço do desconhecido e, juntos, saem para a rua, onde acabava de estacionar o veículo da saúde pública.

Albert consulta o relógio nervoso.

- Deus do céu!... E se a rainha me telefonar?

- Fique tranqüilo, senhor. Ela vai entender - caçoa o agente.

- Moço, tenha juízo!...

- Pois bem, agora podemos ir.

De súbito, a campainha do telefone tilinta dentro do hotel. O hospedeiro, que assistia tudo de pé junto à porta da estalagem, corre e atende.

- Alô!... Sim, Majestade. Quem? Um momento, Majestade... Pode aguardar na linha, por favor, que o policial virá atender.

O recepcionista pousa o fone sobre a mesa, como se fosse uma jóia muito delicada. Em seguida, pula para o passeio bradando:

- Esperem!... Esperem!... Há um engano.

O policial, que abria a porta da ambulância, sente o sangue abrasar-lhe o rosto:

- O que é agora?

Meio sem fôlego e a fisionomia alterada, o hospedeiro fixa os olhos em Albert e pergunta:

- Por favor, seu nome completo?

- Albert Einstein.

- Então é o próprio.

O oficial interfere, nervoso:

- O que está acontecendo?

- Tem uma senhora no telefone querendo falar com você, anda logo que é a rainha.

- Você também está ficando maluco, cara? - irrita o vigilante.

- Não, é verdade - insiste o homem do Hotel. – Anda logo, atende.

Olham um para o outro, interrogando-se. O guarda corre ao telefone:

- Oficial Van Eck falando... Sim, Majestade... Certo, Majestade... Imediatamente, Majestade.

O policial desliga o aparelho; ajeita no pescoço o nó da gravata e se dirige ao cientista.

- Doutor Albert, a rainha deseja falar com o senhor.

Os olhos do cientista iluminam-se. Com o peito ofegante, caminha apressado para o hall do Hotel e, depois de conversar com a rainha, encara o agente da lei com um risinho crítico:

- Bem que tentei explicar. Pode dispensar sua viatura, a rainha já mandou um carro me buscar.

- É claro, senhor.

O hospedeiro também se aproxima de Albert, recompondo-se:

- Perdoe-me, senhor.

- Bobagens!... Bobagens!... Não se preocupe, foi apenas um incidente de percurso. Tudo fica bem quando termina bem, não é mesmo? - conclui o Matemático.

E acrescenta:

- Eu e a rainha vamos tocar um dueto na noite do próximo sábado. Apareçam lá no Castelo, serão meus convidados.

* Notas do autor. Albert Einstein, físico alemão, naturalizado norte-americano ( Ulm 1879 - Princeton 1955), além de ser um dos maiores cientistas de todos os tempos, foi um grande violinista. Recebeu o prêmio Nobel de Física, em 1921. Era um homem generoso, sempre ajudando os mais necessitados.

* Rainha Astrid, rainha dos belgas. Em 1926, aos 21 anos, casou-se com Leopoldo III. Welington Almeida Pinto é escritor. Autor, entre outros livros, de Santos-Dumont, No Coração da Humanidade e A Saga do Pau-Brasil -
www.welingtonpinto.blogspot.com

* FBN© - 2007 – ALBERT EM BRUXELAS -  Categoria: Conto – Gênero: Realismo Mágico - Autor: Welington Almeida Pinto - Iustr.:  foto Rainha Astrid - Internet – Link.: