terça-feira, 8 de maio de 2012

* MURALHA DE FLORES




Welington Almeida Pinto
 

 Imagem da Internet



         Há muitos e muitos anos , um poderoso rei na região da Galiza resolveu construir um muro em torno de sua cidade para dar mais proteção aos seus vassalos.


A notícia logo se espalhou pelo mundo, levando projetistas dos quatro cantos do planeta a apresentar projetos para enorme empreitada. De todos os candidatos, apenas dois foram selecionados e convidados para apresentar seus projetos na corte.


No dia da audiência real, o primeiro a entrar na sala do trono foi Pedro Pedreira. Repleto de promessas, ele apresenta seu projeto:

- Majestade, trago a melhor ideia para construção do grande muro. Farei tudo com pedras brancas, roliças de igual tamanho, assentadas em argamassa com óleo de baleia, escamas de peixe, cal de ostra e terra também branca.

- Escamas de peixe!?... – estranha o rei.

- Sim, Majestade! Escamas de peixe para que o muro faísque ao toque dos raios solares.

- Huuummmmm!... Seu projeto me parece bom. Além de bonito e reluzente, deve mesmo ser bastante seguro.

- Muitíssimo, Majestade. Por fora, a beleza e a miragem da suavidade de uma extensa nuvem de algodão. Por dentro, uma fortaleza indestrutível. Despertará inveja até nos chineses... - afirma o arquiteto muito cheio de si.

- Muito bem. Muito bem, cavalheiro, depois de ouvir o outro candidato farei a opção que achar a melhor ao meu reino.

- Majestade, se optar pelo meu projeto terá o condado mais admirado e protegido da Galiza - garante Pedro, já inclinando o busto para frente numa mesura ao rei.

- Vamos, aguardar.

Após Pedro Pedreira deixar a sala do trono, Monjardim entra para mostrar seu projeto ao Rei. Depois de uma respeitosa reverência, fala em tom manso:

- Senhor da Galiza, trago a Vossa Excelência um projeto para proteger suas terras dos invasores que nada retira dos mares nem das montanhas, além de encher de beleza e perfume os ares de seu reino.

- Tão rico assim? - espanta o monarca.

- Farei uma cerca viva com milhões de pés-de-rosa enfileirados e enlaçados um no outro.

- Rosas!... Que proteção um muro desse pode dar ao meu império?

- Total, Majestade! A roseira é um vegetal lenhoso, cuja haste ramifica desde a base até mais de dois metros de altura. Os ramos se entrelaçam tão habilmente que nem mesmo um pequeno roedor terá como passar pelos seus espinhos, afiados como a ponta de uma espada.

- Interessante!...

- Bastante seguro também. Ecologicamente correto.

- Santo Deus!... Reconheço que tenho diante de mim dois projetos audaciosos.

E depois de pensar mais um pouco o Rei abre o sorriso, dizendo:

- Ah!... Tenho uma ideia.

- Sim, Majestade.

- Você fará uma metade da obra e Pedro Pedreiras fará a outra.

- Mas...

- Concluídas as partes, peço ao mago Pé-de-Vento para fazer o teste de resistência com seus tufões. O construtor da parte que não ceder ao poder do vento será consagrado vitorioso. Ganhará um prêmio de cem mil moedas de ouro e a tarefa de finalizar a muralha em torno de meu reino.

- Bravo, excelência!... É um Rei sábio e generoso - aplaude Monjardim.

Pedro Pedreira igualmente aceitou o desafio. Meses mais tarde, a grande muralha ficou pronta: metade vegetal, metade pedra. A parte de Pedro Pedreira mais parecia uma comprida nuvem celeste, lambendo o chão de uma vasta planície. A de Monjardim estendia-se pelos campos como um extenso paredão colorido, embalsamando o ar com o aroma agradável e o encanto das flores.

No dia do julgamento, o velho prestímano Pé-de-Vento chega cedo ao local da prova e passa um bom tempo examinando o céu. Satisfeito com a inspeção, procura o Rei e comunica:

- Majestade, farei soprar um vento tão forte que a construção mais frágil cairá por terra rápida como estrela cadente.

Risos. O Rei:

- Então, vamos por tudo à prova.

A um sinal do soberano, Pé-de-Vento começa a dizer frases num dialeto diferente. Abre os braços e, com um cajado numa das mãos, risca o ar várias vezes até surgir no azul do céu um bloco de nuvens escuras, escondendo o sol.

- Afastem-se todos do grande muro – grita o mágico.

E com mais fôlego:

- Foooogoooo!...

Foi o bastante para o vento cumprir sua ordem. Solto de tudo, começa a galopar em direção à muralha, tão forte e veloz que a parte feita de pedras desmoronou na hora. A cerca viva resistiu, sem desgrudar um pé de rosa do chão.

Passado o turbilhão, ao ver o céu clarear e o sol voltando a brilhar, aves de várias cores e tipos cruzando o espaço para pousar alegremente nas roseiras, o povo retoma no rosto o sorriso, ovacionando:

- Deus salve o Rei da Galiza!...

Monjardim, muito alegre, justifica:

- Meu bom e estimado Senhor da Galiza, árvore plantada com amor nem o vento derruba, não é mesmo?

O Rei, satisfeito com o resultado, acolhe o arquiteto num abraço vitorioso.

- Ufa!... Pensei que o vendaval ia levar tudo. Confesso que, em toda minha vida, jamais encontrei um ser humano de mão tão boa para plantar rosas.

- Obrigado, Majestade.

Com outro gesto fraterno, o monarca passa o braço em volta dos ombros do Monjardim, convidando:

- Bravo!... Bravo!... Agora, nós vamos comemorar a vitória nos salões de gala da corte.

Despedindo do povo, os dois entram na carruagem imperial e partem em direção ao Palácio, onde comemoraram com festas e júbilo geral até o dia amanhecer. O rapaz , ao ser apresentado a Izabela, apaixonou-se pela princesinha de faces rosadas.

No dia seguinte, Monjadim foi nomeado pela corte ao cargo de Ministro de Meio Ambiente. Provavelmente, a primeira pasta política com esse fim que se tem notícia na história das civilizações.
Tempos depois a outra parte da muralha foi concluída com milhares de roseiras. A partir dai, a Galiza nunca mais foi invadida. Pelo menos, por saqueadores.
* Nota do Autor: releitura de histórias populares do folclore europeu, reverberando que a mesma inteligência que destrói a Natureza pode reconstruí-la.

* FBN© 2009 - MURALHA DE FLORES - Categoria: conto. Autor: Welington Almeida Pinto – Original text: Portuguese
 - Ilust.: Foto Internet – Link: http://contosecronicasgerais.blogspot.com.br/2012/05/editar_2901.html