terça-feira, 8 de maio de 2012

* ACONTECEU NAQUELE BAILE

*
Anos Dourados
 
Baile da Cemig - Minas Tênis Clube - Music Show
 
 

Welington Almeida Pinto

SÓFOCLES larga o jornal e levanta os olhos para o relógio na parede, que marcava nove horas da noite. Esfrega as mãos, ajeita o colarinho da camisa e se despede dos amigos da sala de leitura do Minas Tênis Clube. Desce a escadaria até o hall de entrada do Salão de Festas e fica ali um tempinho, passeando o olhar pela fila de mesas, quase todas ocupadas.

Apressadamente, escolhe uma entre as poucas vazias e logo se acomoda numa mesa de mogno escuro, coberta por um forro amarronzado, onde descansava o cardápio ilustrado com o logotipo do clube. Ao lado um cinzeiro de metal.

Enquanto esperava pelo garçom, seus olhos claros e vivos observavam as pessoas sentadas ao longo da pista de dança. A maioria das mulheres trajavam vestidos longos e os cavalheiros vestiam terno escuro com gravata colorida, quase todos com cara de executivos ou acionistas da bolsa de valores. Com a melhor cara do mundo, elas saudavam umas às outras e riam muito, enquanto aguardavam a hora da orquestra começar a tocar.

De repente, Sófocles avista um garçom que servia logo adiante. Levando um dos braços e estala os dedos, chamando sua atenção. O salão estava cheio. Os garçons se moviam como contorcionistas de circo, fazendo um esforço heróico para melhor atender seus clientes. Dois minutos depois, ele se aproxima, cordialmente:

- Boa noite, doutor.

- Boa noite. Não sou doutor, meu nome é Sófocles.

- Desculpe-me, senhor.

- Por favor, uma cerveja.

- Brahma ou Antártica?

- Só trabalha com as duas marcas?

- Sim.

- Então, a mais gelada, por favor. E dois copos.

- Alguma outra coisa, senhor?

- Por agora, não.

- A comanda, por gentileza – pede o garçom.

- Comanda!?...

- Não lhe deram uma folha de papel na entrada?

- Não. Quer dizer, sim. Desculpe-me, está no bolso do paletó.

- Obrigado. Trago a bebida em dois minutos.

- Bem gelada, sim? – reforça.

O moço sai e logo volta com o pedido, curvando-se para servir.

- Com ou sem colarinho?

- Com.

Dez minutos depois, as luzes do teto diminuem a intensidade e o salão mergulha em agradável penumbra. Cortinas do palco se abrem, exibindo a orquestra que tocavaLook for a Star’, de Billy Vaughn, enquanto um facho colorido de luz tingia as paredes, os móveis, as fisionomias. Hora de dançar. Cavalheiros convidam suas damas e, juntos, caminham solenemente até a pista de dança, onde começam a flutuar em diversos graus de intimidade.

Encantado com a festa, mas ainda oculto atrás de uma garrafa escura de cerveja, Sófocles pensava que poderia convidar alguma moça para bailar. Decidido, estende a cabeça para os lados, como quem quer aparecer para as mulheres sentadas ao seu redor e flertar com alguma.

Do outro lado da pista, uma moça com os cabelos cor de palha e ares de garota, acomodada entre amigas, chama sua atenção. Trocam olhares. Vez ou outra, ele levantava a mão direita e baixava a esquerda, ou vice e versa, como se quisesse mostrar que não tinha aliança nos dedos.  A moça toda sorridente, eleva o copo e faz um brinde no ar, retribuindo-lhe o gesto. Sófocles também ergue o seu copo e faz um sinal de mão, chamando-a para a sua mesa. Ela balança a cabeça concordando. Meio minuto depois deixa suas amigas e se aproxima do homem.

- Ei.

Sófocles fica de pé, estende-lhe a mão e a convida para sentar numa cadeira ao seu lado. A moça agradece com um sorriso meigo nas faces:

- Obrigada.

- É um prazer ter sua companhia.

- Sozinho?

- Ã-hã!... Solidão, às vezes, é bom. Motiva o equilíbrio entre o corpo e a alma.

- Será?

- Pode crer.

- Talvez.

- É mesmo uma linda mulher! – observa Sófocles.

- Acha?

- Uma princesa.

- Ó, não!... Assim você me deixa encabulada.

- Não precisa.

- É novo por aqui?

- A primeira vez.

Ela ri com ar de surpresa.

- Que bom!

- Me sinto um debutante!

- Seja bem-vindo.

- O salão é muito bonito, imponente – ressalta ele.

- Antigo, mas bem conservado. Meio ‘Art Nouveau’, percebe o estilo?

- Claro.

- Aqui a gente se debruça sobre o passado e sonha com os bons momentos vividos ao longo da vida. Desde mocinha frequento esse salão de festas.

- Imagino.

- Gosta de dançar?

- Danço mal – responde o homem.

- Mesmo?

- Sim.

- Não tem importância, aqui ninguém liga – garante a mulher.

- Melhor assim. E você, o que deseja beber?

- Acompanho você na cerveja.

Sófocles imediatamente enche o outro copo.

- Um brinde aos seus belos olhos.

- Tim-Tim. Outro brinde à festa.

- Tim-Tim – repete Sófocles, tlintlincando os copos.

- Sabia que toda sexta tem um bailinho para os sócios?

- Prometo ser um frequentador assíduo.

- Vai gostar, logo-logo se enturma.

- Melhor. Qual o seu nome?

- Luciana. E o seu?

- Sófocles.

- Sófocles! Homônimo do dramaturgo grego?

- Meu pai era grande admirador da cultura grega. Mas, não sou nada trágico.

- Nos tempos de faculdade li ‘Édipo Rei’. Adorei – revela Luciana.

- Segundo Freud, representa o drama de todos nós.

- Talvez sim, talvez não.

- E você, o que faz na vida?

- Sou professora. Cursei Letras.

- Letras!

- Leciono no Estadual Central.

- Apenas ensina literatura ou escreve também?

- Não, não escrevo. Esse é um dom de poucos, mas sou uma leitora compulsiva. Só um livro guarda, entre duas capas, sabedoria para capacitar a mente do individuo.

- Então deve ser uma excelente professora.

- Me esforço.

- Sabe de uma coisa, Luciana, eu adoro mulheres inteligentes. Para mim inteligência é um componente afrodisíaco.

- Afrodisíaco?

- Isso mesmo, afrodisíaco.

- Quer dizer que a inteligência excita?

- Muito – afirma o homem sorrindo.

- Ô louco!... Meio cômico, mas...

- Mas?

- Deixa para lá. E você, o faz?

- Ganho a vida produzindo textos.

- Jornalista?

- Publicitário. Quando a inspiração bate faço literatura.

- Pelo jeito, deve bater sempre.

Depois de algum tempo trocando risos e palavras, Sófocles põe uma das mãos no joelho da mulher. Fica um tempo admirando seus lábios cobertos de vermelho e louva:

- Você tem uma boca bonita.

Antes que ela dissesse qualquer coisa:

- Os olhos também. Azuis como o céu de Paris.

- Paris!

- Conhece?

- Nunca fui a Paris.

- Não?

- Um dia quem sabe?

- Vai gostar.

- Você é um observador perspicaz.

- Sou?

- Percebo.

- O belo atrai, sempre.

A mulher ri, cheia de satisfação. Do longo vestido de organdi azul que moldava seu corpo, surgiam dois braços arredondados e claros, nus até os ombros, onde o homem, de leve, vez ou outra depositava uma das mãos, maliciosamente.

- Tem a pele tenra como veludo.

- Meu Deus!...

- Ah, o seu perfume é bem atraente!...

- Magriffe.

- Gosto dos perfumes franceses.

- Também adoro.

- Claro.

- Sófocles?

- Hum?

- Posso revelar um segredo?

- Sim. Juro não contar para ninguém.

Risos. Luciana:

- Tenho medo de homens com mais de quarenta anos.

- É a idade que acha que tenho?

- Ã-hã.

- Quando uma pessoa me pergunta a idade sabe o que digo?

- Nem imagino.

- Olho-a de baixo a cima e digo: depende do dia.

- Ah, é!... Por exemplo: hoje?

- Posso garantir que, por sorte, pelo menos por enquanto não represento perigo. Tenho trinta e nove anos, onze meses e vinte uns dias.

A moça ri descontraída. Depois filosofa:

- Aos 20, seu rosto é dado a você pela natureza. Aos 30, seu rosto é moldado pela vida. Aos 50, cabe a você merecê-lo.

- Fabuloso. Quem disse isso?

- Coco Chanel.

         - Não sabia que a estilista também filosofava.

- Pois sim. Não tem mais de quarenta anos, mas tem talento de sobra na arte da conquista. Muito perigoso para uma mulher sozinha – atenta Luciana.

- Protesto.

- Hein?

- Sou inofensivo, puro. E por cima, tímido.

Risos. Grandes focos azulados de luz, a todo minuto, riscavam as paredes e o teto do salão. Animado, Sófocles faz um sinal ao garçom, que chega deslizando entre as cadeiras.

- Outra cerveja, por favor.

Luciana, ao retirar o garçom, coloca a mão levemente num dos braços do companheiro.

- Tive uma ideia: vamos dançar?

- Dançar?

- É, dançar.

- Daqui há pouco.

- Agora.

- Desculpe-me, querida. Enferrujado com estou, sinto que preciso beber mais um pouquinho. Preciso de mais álcool para lubrificar as juntas de minhas pernas.

- Pena.

- Me dá só mais um tempinho, dá?

- Então... Então... Olha aqui, enquanto você pensa volto para a mesa de minhas amigas, certo?

- Já?

- Foi um prazer.

- Assim que tocar um bolero, tiro você para dançar. Posso?

- Bolero?

- Dois p’ra lá, dois p’ra cá...

- Espertinho!

- Meu coração deseja vê-la novamente.

- Combinado.

Com a mesma expressão afetuosa e divertida, Luciana fica de pé, despedindo-se:

- Tiauzinho.

- Espere.

- O que foi?

Sófocles toma um gole de cerveja e surpreende a mulher com um beijo furtivo, passando parte do líquido para sua boca. Luciana experimenta um friozinho agradável no fundo da barriga. Sem dizer uma só palavra, ela deixa a mesa remexendo os quadris e rindo do gesto audacioso do homem.

 A festa continuava acalorada. Mas, antes do baile acabar Sófocles decide ir embora, permitindo morrer sob os dedos a melodia que devolvia lembranças ligadas à sua mocidade. Chama o garçom e paga a conta.

Atravessa a porta principal do salão de festas do clube e toma o elevador, deixando atrás de si a felicidade resgatada pelas músicas dos anos sessenta que a orquestra ainda tocava: ... Óóóóhhh... Óóóhhh... Diana, por favor...

- Valeu!... – suspira o homem, pegando no bolso das calças a chave do carro.
 


* FBN© - 1986 – ACONTECEU NAQUELE BAILE -  Categoria: Conto – Gênero: Realismo Mágico - Autor: Welington Almeida Pinto – Original text: Portuguese - Iustr.:  foto Internet – Link.:  http://contosecronicasgerais.blogspot.com.br/2012/05/editar_8431.html