terça-feira, 8 de maio de 2012

* ALBERT EM BRUXELAS


*
 
 

Rainha Astrid, rainha da Bélgica

 

- Chegamos, senhor. Esse é o hotel mais próximo da Igreja Notre-Dame-de-la-Chapelle.

- Ah, sim. Obrigado. Esta nota paga a corrida?

- Dez Francos!... Sim, ainda sobra troco.

- Não precisa. Guarde o dinheiro.

- É bem mais do que o preço marcado pelo taxímetro, senhor.

- Não se preocupe. Resta-me outra, o bastante para pagar a pensão por essa noite - garante o passageiro.

O motorista sorri agradecido.

- Bom descanso, senhor.

- Danke.Tiau.

Albert desce do táxi e entra no Hotel. Pára diante do balcão de atendimento e toca a campainha para chamar a atenção do recepcionista que lia um jornal, mergulhado na poltrona.

- Boa noite.

O moço ergue os olhos.

- Sim, senhor.

- Meu nome é Albert, venho de Londres. Quero um quarto.

- Um quarto!?... admira o recepcionista, aborrecido com a interrupção da leitura por aquela estranha figura de pé na sua frente: um homem magro; a cabeleira branca, emaranhada, descendo pela nuca sobre um colarinho encardido.

- Sim. Um quarto, por favor - repete Albert, sorrindo.

- Muito bem, são doze francos. Pagos adiantados, por favor.

Albert põe a pasta de couro no chão e o capote sobre ela. Remexe os bolsos do casaco e retira uma nota de dez francos, além de algumas moedas, e põe o dinheiro sobre o balcão.

- É o que sobrou - diz.

O hospedeiro, depois de contar os valores:

- Lamento, o senhor só tem dez francos e cinqüenta e quatro centavos. Não posso fazer nada.

- Mas...

- Não adianta insistir. Descendo a rua vai achar pensões mais baratas.

- Não, está tarde. Amanhã, pago o restante.

O homem do hotel cuspinha para o chão.

- Impossível.

- Calculei mal.

- Quanto pensa que tinha?

- Não sei o certo. Quando saí de Londres minha mulher me deu várias notas. Disse que era o bastante. Mas encontrei tantos pobres no navio que me vi na obrigação de ajudar alguns.

- Pobres, é!... O que veio fazer em Bruxelas?

- Visitar amigos.

- Por que não fica com um deles?

- Amanhã. Não quero importuná-los a essa hora da noite.

- São pouco mais de nove horas.

- É tarde. Acho que não devo.

- Importunar amigos não pode, mas encher meu saco pode. Vamos andando, cara. Descendo a rua você encontra hospedagem mais barata.

- Tudo bem. Mas, gostaria de merecer um favor.

- Se prometer dar o fora.

- Prometo. Antes, quero usar seu telefone.

- Se é assim, passe o número que eu disco.

- Só tenho o endereço.

- Tudo bem. Desembucha logo que já estou com a lista telefônica na mão.

- Castelo de Laken.

- Castelo de Laken!... Está brincando comigo, cara!

- Não, não estou.

- Trote, não é?

- Não, não é. Tenho uma grande amiga que mora lá.

- Na residência real?

O recepcionista torna a olhar Albert de cima a baixo. Depois de uma risadinha divertida, caçoa:

- Suponho que toma chá com a rainha Astrid.

Albert sorri.

- Sim, às vezes. Ela é minha amiga.

- Fazendo hora com minha cara, não é?

- Não, não estou. Por favor, veja para mim o telefone do Castelo de Laken.

O moço, depois de pensar um pouco, desenha nos lábios um risinho irônico e resolve divertir um pouco mais com o estrangeiro. Encontra na lista o telefone do Castelo, disca e passa o aparelho a Albert, dizendo:

- Fique aí batendo papo com a rainha que vou até a porta tomar um ar.

Albert pega o fone com cuidado, como se pedindo perdão pelo aborrecimento. O hospedeiro sai e logo volta com um policial ao lado.

- Tudo bem, tudo resolvido - adianta Albert, ao avistá-lo novamente.

- Que foi que a rainha disse? - pergunta o hospedeiro, piscando para o guarda.

- Estava no banho. Deixei o recado com a camareira. Passei a ela o número do telefone do hotel. Fiz mal?

O moço da recepção balança a cabeça, como se concordasse. O policial caminha até Albert e bate uma das mãos nos seus ombros.

- Como se sente, senhor?

- Agora, melhor. E o você?

- Não se preocupe comigo. Vou providenciar uma ambulância para levá-lo ao Hospital.

- Para mim!?... Não precisa, não estou doente.

- Sei como é. Deve ser um surto passageiro - o agente tenta explicar.

- Acha que estou ficando tantã?

- Fique tranquilo, o senhor terá um bom tratamento em nosso hospital.

- Pare com isso. A rainha vai me ligar daqui a pouco.

O policial ironiza, rindo:

- Tudo bém. Vou deixar o telefone da clinica na portaria do Hotel. Ela telefona para lá.

E dirigindo-se ao hospedeiro:

- Chame a viatura, por favor.

Albert perplexo:

- Seu guarda, não acha que está cometendo um grande erro?

- Por favor, controle-se.

Albert perde a paciência e ameaça deixar a recepção da hospedaria. O policial dá um passo à frente, agarra com fúria o braço do desconhecido e, juntos, saem para a rua, onde acabava de estacionar o veículo da saúde pública.

Albert consulta o relógio nervoso.

- Deus do céu!... E se a rainha me telefonar?

- Fique tranqüilo, senhor. Ela vai entender - caçoa o agente.

- Moço, tenha juízo!...

- Pois bem, agora podemos ir.

De súbito, a campainha do telefone tilinta dentro do hotel. O hospedeiro, que assistia tudo de pé junto à porta da estalagem, corre e atende.

- Alô!... Sim, Majestade. Quem? Um momento, Majestade... Pode aguardar na linha, por favor, que o policial virá atender.

O recepcionista pousa o fone sobre a mesa, como se fosse uma jóia muito delicada. Em seguida, pula para o passeio bradando:

- Esperem!... Esperem!... Há um engano.

O policial, que abria a porta da ambulância, sente o sangue abrasar-lhe o rosto:

- O que é agora?

Meio sem fôlego e a fisionomia alterada, o hospedeiro fixa os olhos em Albert e pergunta:

- Por favor, seu nome completo?

- Albert Einstein.

- Então é o próprio.

O oficial interfere, nervoso:

- O que está acontecendo?

- Tem uma senhora no telefone querendo falar com você, anda logo que é a rainha.

- Você também está ficando maluco, cara? - irrita o vigilante.

- Não, é verdade - insiste o homem do Hotel. – Anda logo, atende.

Olham um para o outro, interrogando-se. O guarda corre ao telefone:

- Oficial Van Eck falando... Sim, Majestade... Certo, Majestade... Imediatamente, Majestade.

O policial desliga o aparelho; ajeita no pescoço o nó da gravata e se dirige ao cientista.

- Doutor Albert, a rainha deseja falar com o senhor.

Os olhos do cientista iluminam-se. Com o peito ofegante, caminha apressado para o hall do Hotel e, depois de conversar com a rainha, encara o agente da lei com um risinho crítico:

- Bem que tentei explicar. Pode dispensar sua viatura, a rainha já mandou um carro me buscar.

- É claro, senhor.

O hospedeiro também se aproxima de Albert, recompondo-se:

- Perdoe-me, senhor.

- Bobagens!... Bobagens!... Não se preocupe, foi apenas um incidente de percurso. Tudo fica bem quando termina bem, não é mesmo? - conclui o Matemático.

E acrescenta:

- Eu e a rainha vamos tocar um dueto na noite do próximo sábado. Apareçam lá no Castelo, serão meus convidados.

* Notas do autor. Albert Einstein, físico alemão, naturalizado norte-americano ( Ulm 1879 - Princeton 1955), além de ser um dos maiores cientistas de todos os tempos, foi um grande violinista. Recebeu o prêmio Nobel de Física, em 1921. Era um homem generoso, sempre ajudando os mais necessitados.

* Rainha Astrid, rainha dos belgas. Em 1926, aos 21 anos, casou-se com Leopoldo III. Welington Almeida Pinto é escritor. Autor, entre outros livros, de Santos-Dumont, No Coração da Humanidade e A Saga do Pau-Brasil -
www.welingtonpinto.blogspot.com

* FBN© - 2007 – ALBERT EM BRUXELAS -  Categoria: Conto – Gênero: Realismo Mágico - Autor: Welington Almeida Pinto - Iustr.:  foto Rainha Astrid - Internet – Link.: